Saúde pessoal e planetária: é tudo uma coisa só
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Saúde pessoal e planetária: é tudo uma coisa só

19 de janeiro
Criado por: Luisa Fedrizzi

Parece óbvio depois que entendemos, mas é uma conexão que não fazemos automaticamente ou o tempo todo: a saúde pessoal está intimamente conectada à saúde planetária. Jogar luz sobre este tema é muito importante, sobretudo no momento que vivemos – como indivíduos sob a vigilância de um vírus e como sociedades, começando a ver de perto as implicações das mudanças climáticas.

Trata-se de um ciclo que se retroalimenta (e que, portanto, pode ser virtuoso ou vicioso): a manutenção e melhoria da saúde são fundamentais para o cuidado com o meio ambiente e o desenvolvimento de sociedades, ao mesmo tempo que “a qualidade do ambiente e a natureza do desenvolvimento são determinantes para a saúde” das pessoas, como diz a Organização Mundial da Saúde. Não é difícil pensar em exemplos, próximos ou distantes, em que conseguimos ver esta inter-relação com clareza. No entanto, ela nem sempre se evidencia no nosso cotidiano, sobretudo quando pensamos no tipo de sistema em que vivemos, que cada vez mais nos adoece em camadas mais profundas, enquanto normalizamos uma série de comportamentos e contextos que sabemos serem prejudiciais a nós mesmos – e, portanto, ao planeta.

Em estratos privilegiados da população, ter consciência de como nossos trabalhos, padrões de consumo e estilos de vida afetam o meio ambiente já deveria, hoje, em pleno 2022, ser fundamental. Mas será que esta reflexão tem nos levado a pensar sobre como estes mesmos aspectos e comportamentos afetam nossa saúde pessoal? Não digo isto – apenas – no sentido de pensarmos sobre o que comemos ou se praticamos atividades físicas, por exemplo: falo em um aspecto mais amplo, mais holístico, que engloba nosso ritmo de vida, nosso volume de trabalho, nosso tempo de lazer e descanso, nossos níveis de estresse, nosso sono, nossas relações… Podemos agir de forma consciente em aspectos externos e de forma totalmente “inconsciente” quando o assunto são estas questões mais internas e abrangentes – por vezes sutis e, em outras, totalmente descaradas. Faz sentido comermos orgânicos enquanto trabalhamos 12h por dia? E faz sentido reservarmos tempo para nós mesmes e nem sequer separarmos o lixo? As questões que a contemporaneidade nos impõe são complexas e paradoxais, evidenciando por mais um ângulo a falência do sistema. Navegar por elas requer um misto de auto-conhecimento, visão sistêmica e senso de responsabilidade. 

Interpersonal Wellness System Model em português o Modelo do Sistema de Bem-estar Interpessoal

Recentemente, conheci o Interpersonal Wellness System Model e, imediatamente, me bateu que esta ferramenta (que hoje é usada num contexto tão atual quanto o processo de coaching) pode ser vista como uma releitura contemporânea e, de certa forma, simplificada – o que também é a cara do nosso tempo, né – , de conhecimentos ancestrais sobre saúde como a Medicina Tradicional Chinesa e o Ayurveda. Há milhares de anos, estes sistemas foram capazes de compreender que nosso estado de saúde depende de muitos fatores, internos e externos, e de um engajamento ativo conosco e com o mundo.

A saúde é algo muito mais complexo, profundo e pessoal do que apenas a ausência de doença – e quando digo “pessoal” me refiro ao entendimento das particularidades de cada indivíduo, e não de uma desconexão com o todo. Pelo contrário, uma das coisas mais bonitas de práticas tradicionais como o Ayurveda é justamente o entendimento de que somos feitos da mesma matéria que a Natureza e as coisas que nos cercam, que somos parte de uma teia de vida e que, portanto, somos permeáveis. O que absorvemos pelo corpo físico, pela mente e pelo espírito nos alimenta ou nos desidrata, nos satisfaz ou nos esgota, nos nutre ou nos desequilibra. Nossa saúde, portanto, é constituída de partes móveis e mutantes, tão impermanentes quanto a vida em si. Por isso, cuidar da saúde é prática de autoconhecimento, e das mais profundas – e, nesse sentido, escancara ao mesmo tempo questões pessoais e sistêmicas, escolhas e renúncias, condicionamentos e convenções. Nos faz pensar sobre nossa consciência a respeito de nós mesmos e também nos insere no ambiente, para que possamos compreender o impacto que ele tem sobre nós.

No final dos ano 70, o sociólogo e pesquisador estadunidense Aaron Antonovsky estabeleceu o conceito e fundou o termo salutogênese para designar a busca das razões que levam alguém a estar saudável, reunindo as formas e as forças que promovem a saúde e a qualidade de vida de indivíduos e populações. Diferente do paradigma da patogênese (que tem como objeto de estudo são as doenças, suas causas, formas de tratamento e prevenção), a salutogênese está focada no processo de saúde e na compreensão de como podemos nos manter sadios mesmo enfrentando dificuldades e adversidades na vida.

Você pode se aprofundar nesta perspectiva por meio deste ótimo resumo feito pela nutricionista Yassana Marvila Girondoli, mas o que buscamos destacar aqui é: a visão da salutogênese implica no desenvolvimento pessoal e social para o fortalecimento da saúde das pessoas nos mais diferentes meios e cenários sociais. Ele tem dois aspectos principais: o senso de coerência e os recursos gerais de resistência. O primeiro refere-se a ver a vida estruturada, manejável e com sentido emocional, permitindo que a gente consiga enfrentar os estressores presentes na vida cotidiana. Já o segundo fala das as variáveis relacionadas ao indivíduo, ao grupo social e ao meio ambiente que podem facilitar ou não o manejo das tensões.

Ou seja, não há nada mais fundamental na construção de um design salutogênico (que pensa estruturas para o bem-estar social, ambiental e, portanto, coletivo) do que unir auto-conhecimento e visão sistêmica, nos inserindo em nossas relações com a natureza e o todo. Para que a vida crie condições propícias à vida, é preciso que, antes de tudo, ela se saiba como tal.